MAQUIAR-SE É UM ATO SUBVERSIVO

“Mulher de má pinta é a que mais a cara pinta”

 

Há muito tempo eu sofri calada, mas agora eu resolvi falar: eu tenho o direito ao meu próprio corpo. Isto não é uma vaidade típica de uma elite mundana ou um capricho libertino, como pensam os mais conservadores. É difícil admitir que o corpo da mulher pertence – em primeiro lugar – a ela. Não ao seu marido. Nem ao seu pai. Nem ao seu namorado, mas somente a ela mesma. É uma verdade que provoca reprovações ferozes. E como provoca!

Durante muito tempo na História, costumava-se associar o embelezamento ao pecado. Num romance de Menotti del Picchia chamado “A Mulher que pecou”, o quarto da protagonista era descrito como um lugar de luxo e luxúria, “cheio de perfumes e espelhos”. A vaidade e o ato de embelezar-se era relacionado a uma vida viciosa. Frívola. Lasciva. Até os anos 50, as mulheres “de bem” acreditavam que não era bom encher a cabeça com vaidades cosméticas, especialmente com tantas obrigações domésticas. Usar maquiagem? Isso é coisa de gente duvidosa. Coisa para atrizes de cinema e prostitutas.

Eu pensava que lá pelos anos 70, na década do “eu”, a coisa tinha mudado. Com a sexualidade e a valorização do corpo em pauta, a proposta de gostar de si teria vindo à tona e embelezar-se já não mais era uma proposta de “vadias” e “homossexuais”. Era um mundo de Leila Diniz, de hippies, de amor livre.

Mas eu vejo que não. Eu vivo isso todos os dias. Quando ouço “Esse batom é muito espalhafatoso” de um garoto. Quando alguém fala: Nossa, que decote exagerado! Ou “Para que usar maquiagem tão CARREGADA?”. Carregada de preconceito. Carregada de machismo. Carregada de patriarcado.

Não bastasse, ainda ouço “Mas você virou blogueira de beleza? Tão inteligente.” Eu não me defino por formatos, mas enfim, não é o título que está em pauta. A questão é: porque é proibido gostar de se embelezar? Engana-se quem pensa que sou um objeto de modismo. Eu sou sujeito deles.

Ainda que se achar bonita seja uma construção social e passe pelo olhar do outro, é antes de tudo uma decisão pessoal que tem tudo a ver com a autoestima. O caminho para esta revolução começa na nossa intimidade. Eu amo meus batons coloridos, delinear os olhos, modelar os cabelos. E a minha beleza continua não estando a serviço de ninguém. Está a serviço de mim mesma e eu seguirei me maquiando. Me chamem de frívola. Me chamem de banal. De fútil e de vulgar. Eu, rebelde, sigo a me pintar.

 

 

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